quinta-feira, 19 de maio de 2011

Clash


Olha, eu já achava Clash by night um filme fodaço de Lang. Mas revendo agora, vejo que simplesmente é muito melhor que seu experimento barroco, O segredo da porta fechada, que não consegue se libertar da aura caligárica; aqui, tudo é geometrizado, cadenciado pela linha diagonal e pela plongé perimetral; mas são os olhos de um epicurista ( os tarados do Mediterrâneo, digamos) que contemplam este mundo mineralizado, estigmatizado pelo sal, pelo sol e pela pedra, os anátemas da culpa.

Tudo é precisamente traduzido- arquiteturalmente, à la Lang- neste paradoxo glorioso: as tensões e recalques tenessee wiliamsianas dos personagens, o lado negro da força, são mostrados à luz do sol e da carraspana, da foda e do piquenique. É o contraste entre esta paisagem de cartão-postal e o huis-clos demoníaco dos personagens que garante ao filme o fôlego amplo e caricioso que ataca a gente depois das experiências limítrofes, o orgasmo ou a bebedeira. Respiramos leves e nulos, plenos. Mas sabemos que aquele instante epicurista de saciedade de nós mesmos é o limiar de uma negatividade absoluta: o começo do fim, do Nihil; a porta de entrada da aniquilação.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

... e o imperdível livro do Raymond Durgnat sobre Jean Renoir.

Anémone do Garrel em cópia boazinha no Karagarga. Bom programa duplo com Les ombres do Brisseau: pastéis, piparotes geracionais de câmara, contracampo em surdina e tatibitati, le jour de gloire n'arrivera jamais!

O fantasma feito carne

http://www.youtube.com/watch?v=vC-zkksO-zc



Se o Guerin de Trem de sombras tenta uma fusão impossível entre o estrutural e o romanesco (enlutado), Ken Jacobs em Tom Tom reinveste a estrutura com um “carnaval sináptico e rizomático” não muito distante da heterogenia do corpo grotesco que Bakhtin viu em Grangântua: um plano de conjunto de um vaudeville perdido na noite vitoriana da má-consciência ( o curta da Biograph que o filme digere) aqui se desfibra em mil e um quistos- humorísticos, eróticos, paranóicos, mas sobretudo cíclicos - que vão fecundando/desenraizando/ulcerando o esquálido corpo da Película-mãe com estes fetos monstruosos- o cartoon televisivo, a chanchada em faux-raccord ( Acossado e Kluge), o péplum jansenista ( L’argent) , as Naturezas-mortas esquizo, em Duras-, que não largam a carcaça da bruxa ...

Necrofilia edipiana de primeira grandeza.

domingo, 15 de maio de 2011

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Dois e meio

História imortal, festim de Ivã, o Terrível: Dois delírios megalômanos miniaturizados em cromos encarnados; duas polifônicas câmaras de rimas- espelhos, duplos, raccords “estrábicos”- repercutidas ad infinitum numa galeria que, como o jardim borgeano de caminhos que se bifurcam, refratam um Uno e múltiplo pesadelo de ópio, demiúrgica gnose do Mesmo: um cosmo por refletir à minha imagem e semelhança ( Moscou, 1570), um filho por engendrar e emoldurar, à nossa "errata" Miserere.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

O poço e o pêndulo, Astruc


Astruc é a quintessência de uma nouvelle vague secreta, herdeira da educação sentimental e da novela moralista do século 18, pessimista e ancien régime; este conto gélido e claustrofóbico sobre o martírio de uma vítima da Inquisição espanhola, envilecido por arabescos decadentistas de câmera, sutura a pompa mercurial do Bava de La frusta e il corpo com a rarefação rocambolesca das Danças da Morte de Ophüls: há um "novo velho cinema" francês aí que definitivamente deve mais ao caligrafismo italiano do que à Graça encarnada rosselliniana ou à empreinte emanentista dos performers pé de boi de Rouch; e , evidentemente, já flerta com o telefilme ( la tv c'est le direct).

terça-feira, 3 de maio de 2011

Combat

Combat d’amour en songe é um Ruiz que abusa da síndrome de “intoxicação de pitoresco” de que sofre o autor; é um ensaio leibiniziano- leia-se: da compossibilidade dos mundos: sonho, mito, filtro, féerie, charada, páft!,puft!- em forma de bula sobre a esquizofrenia das nossas cápsulas de Internet, que finalmente fizeram coincidir num único espaço-tempo o que a metafísica aliterou entre dimensões paralelas do ser: o atual, o virtual, o potencial. Piada deliciosa sobre ser adolescente no século 21.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Do sangue


Féerie dialética: o horror casado com o lírico ( arredores da mítica Paris, crianças brincando, casal ao vento) geram uma terceira imagem, que os surrealistas sempre buscaram: a medusina face do cotidiano, o rastro de sangue no beijo, a iminente ruína no alabastro da inocência. Dialética em carne viva, e natimorta.

Olhos sem face

Olhos sem face parece um Lang que tomou muito Château Lafite: asséptico, grisâtre, bisturi mordendo a bruma; entre Frank Wright e comics, e basicamente o horror do filme consiste na utilização de um décor gelidamente neutro- leia-se: teoremático- como matéria-prima de uma féerie assombrada, povoada de espectros infantis e obsessões paranóicas à la Mabuse: o Logos a serviço do demoníaco. Muito da posterior associação do Mal no cinema com o informe e o infigurável sugerido pelo branco, arauto lácteo da Morte (e, em sua alteridade fantasmagórica, uma cor gêmea do negro) surgiu daí; em um The fog, por exemplo. É um conto de fadas, mas recitado pelo ponto de vista, míope e lacrimejante- o nevoeiro prateado de Shüfftan, a balada tatibitati e mortuária de Jarré- do injustiçado monstro ( Borges, no Abenjacan: Ariadne, o Minotauro apenas se defendeu!).


terça-feira, 26 de abril de 2011

À ma soeur

Belo e frígido este À ma soeur. Breillat faz tudo ao contrário do que se esperava: um filme de terror em surdina ( como deve ser todo filme sobre adolescência, sobretudo rejeitada) que vai "encasulando" os personagens no formol do “plano feito cena”; e que ao mesmo tempo os permite flutuar, mas de forma insidiosa, com um pé no purgatório, outro no inferno iminente: no jogo entre planos médios e gerais, e sobretudo neste traiçoeiro découpage sibilante que alterna entre planos zumbis e violentos esporros de superfície; filme em que o predador à espreita e a presa a devorar são, não exatamente ( ou apenas) rivais ou figuras complementares do feminino espoliado , mas sobretudo cúmplices de uma mesma experiência de danação e êxtase sob baía-postal burguesa e endomingada.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Berlin

O epílogo de Berlin é uma besteira grandiloqüente, sub-Syberberg, a quem Fassbinder odiava/invejava. Mas a série é um abregé fascinante de suas obsessões: a figura do duplo ( como saca Lardeau no belo livro sobre ele); a imagem sacrificial originária ( a morte da mulher de Franz e de Mieze, outro duplo) como o selo de um mundo reificado e idólatra; os fantasmas da mercadoria, nos arabescos do maneirismo; fetiche, masoquismo, decadentismo. O apocalíptico álbum de imagens de um satirista à la Lichtenberg e um decadentista à la Schnitzler, pós-Wirtschaftswunder: um niilismo anarquista em tempos de prosperidade; alguém lembra do Brasil e dos anos 2000 nesta hora, e da necessidade urgente de um outro espírito de porco genial em tempos calamitosamente anti-messiânicos?

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Blind

Revendo o belo Blind husbands na cópia restaurada do Filmmuseum, talvez o melhor Stroheim junto com o que poderia ter sido Greed. Découpage claríssima, transparente; mas há uma perversa travessia que estrutura o filme- e que se vê em filigrana em toda a sua obra: a passagem do romanesco ( plano geral, notação sociológica, crônica de costumes) ao trágico, ao detalhe naturalista, expresso num close ou num plano médio perniciosamente radiográfico do Mal que corrói cada personagem. Quem iria melhor se aproveitar da intuição de Stroheim – perceber o trágico como uma dimensão a que só podemos ter acesso, numa arte materialista como o cinema, através do “pathos da tara”, do patético da pulsão- em alguns filmes essenciais -e essencialmente desnorteadores –seria o Renoir de Toni, Lange ou A regra do jogo.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Dons


Engraçado: com Accattone- que revi para o curso-, revi também dois outros filmes que adoro- Dilinger está morto e Passageiro: profissão repórter. Accattone é transparente, de uma luz diamantina: meridional, puerperal, presente como uma paixão recém-nascida ou uma morte por sagrar. Os outros dois, pelo contrário, são das coisas mais fantasmagóricas que já vi em cinema: uma fantasia niilista sobre a insônia (Dilinger) e um road movie sobre Um que é um Outro, e não cansa de buscar o ponto de intersecção desta comédia de erros existencial, entre Madrid, Roma e o deserto ( melhor lugar para se perder, só um plano seqüência de Astruc). Mas pensando bem, são filmes sobre a Morte: sobre a Morte como Summa da vida ( Accatone), in retrospecto. E no caso dos outros, sobre- como dizia Cocteau- la mort au travail, esta morte que torna o cinema uma arte tão graficamente invisível e evanescentemente visível, para( doxa) encarnado: dom do Nada e Presença do Dom.

domingo, 3 de abril de 2011

Savates

Les savates du bon Dieu certamente não é do maiores Brisseau, mas é um filme (s) no mínimo muito inventivo (s): um thriller, uma aventura telúrica pelas terras escarpadas do Sul da França e pelos corpos embalsamados de luz ( como tantos de seus filmes), um stand-up comedy para adolescentes em férias de si mesmos - um plano para cada personagem, uma sequência para cada grupo- , mas também um filme erótico incestuoso sobre a Mater Natura, a maior das libertinas de seus filmes: túrgida, láctea, incandecente, venérea- com aquela luz que Gauguin encontrou no Taiti e perdeu na Mancha-, como uma Juliette pós-coito...

quinta-feira, 31 de março de 2011

Texto meu sobre Desejo Humano na Cinética.

http://www.revistacinetica.com.br/desejohumano.htm

terça-feira, 29 de março de 2011

Cockfighter e outros

Cockfighter do Hellman é mesmo um filme sobre sacrifício ( expiatus est, Números 19:20) e a impossibilidade de se reconciliar com o passado- ou redenção, como um dia chamaram os habitantes de uma improvável Canaã. Não por acaso, estou fazendo uma constelaçãozinha cá comigo, revendo au hasard capítulos do Berlin Alexanderplatz, do Fassbinder. Mesma toada expiatória, mesma pedra lançada à sombra da casa por-vir, como na parábola de Rocco e seus irmãos. As coisas flutuam pelo ar mas caem no mesmo poço, escuro e pútrido.

domingo, 27 de março de 2011

Lesson des tènébres

Revendo o kammerspiel novela das 8 Anjo negro... Brisseau é um neo-classicista, mas que pinta seus tableaux como Lorenzo da Ponte e Marivaux: da cozinha. O estudo moralista, a novela pedagógica e a pintura romântica dos séculos 17 e 18 –Poussin, Ingres, Delacroix- tem aqui sua reedição, discretamente ironizadas por esta indistinção esquizóide entre sonho e vigília, que transgride os padrões racionalistas franceses do século das Luzes com uma tinta de boutade pulp, fetichista e hipnagógica, Éluard e Breton no comando...

E Anjo negro, como alguns de seus melhores filmes- Un jeu brutal, Céline, À l’aventure- é também um filme pedagógico, em que uma trajetória exemplar ou uma lesson des moeurs é reproduzida/recitada por/para um outro personagem... mas aqui não há ascese, transfiguração; só uma odisséia niilista ao coração das trevas engalanadas- cores fúnebres: o dourado, o vermelho e o negro- da Terceira República; A filha aprende com a mãe a ser puta e venal, e por fim a destruí-la, como a mãe ao mundo ( os tiros no final, que retomam simetricamente o início do filme). Mas não se sai com nada de novo daí- como Céline com a Iluminação mística, ou a aluna de A aventura com a Física de Lucrécius, e todas as personagens reconciliados com o cosmo, mesmo e sobretudo quando arrasadas, reintegradas enfim ao Uno, como ao final de De bruit et de fureur. Aqui, ficamos com as sombras e o caos, infinitos, como bem ilustra a epígrafe de Éluard.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Un jeu


Revisto Un jeu brutal, esta obra-prima absoluta ( e absolutum), ainda secreta , sabe lá Satã porque. É realmente incrível como Brisseau consegue uma das fusões mais extraordinárias entre Hitchcock e Buñuel sem perder em nada de sua transparência irônica de heresiarca do século 18, sua nonchalance caipira e esta aspiração cósmica, esta perversa viração sub specie aeternitatis, que em seus filmes se confunde tantas vezes com o outonal aroma da danação...

terça-feira, 22 de março de 2011

A Religiosa


vi La religieuse ontem e... é genial como Rivette ( by Diderot) transforma um proto-exploitation num filme evanescente e coleante sobre mise en scène encarnada; é uma adaptação do credo da "graça epifânica" rosselliniana ao divertissement do século 18: bailados, mazurcas, quadrilles festejam uma carne mortificada, que só pode exister eroticamente "para a cena e pela cena". E que austeridade raciniana!, transposta para o corte, glacialmente cortante como uma réplica de Courtelin.