O primeiro cinema de Arrieta
capturou ( presentificou) as fantasmagorias da infância e imprimiu-as na
superfície empreinte de verité do plano,
que a tudo retém, consagra, fixa. O arquétipo desta primeira operação de
conversão do invisível no trop visible
do plano de cinema era o Anjo. Mas com Flammes já estamos na adolescência, e o
fantasma é francamente erótico: um bombeiro, cuja função é justamente “matar o
fogo” da jovem ( e poucas vezes a apalavra e a coisa serviram reciprocamente ao
literal e ao simbólico sem perder, respectivamente, em pujança pulsional e
força de analogia). Mas sabemos , desde Sade até Lacan, que o Desejo é um
fantasma- ou seja: nada de determinado, de este ou aquele, etc; conjuga-se,
portanto, infinitivamente ( talvez seja a única força infinita que habita o
homem); portanto, como não é isto nem aquilo, ele pega, compartilha-se,
transmite-se: o jovem americano tinha um demoníaco fascínio pelo fogo, até o
fogo consumir toda a família num incêndio; a amiga de Caroline passa a sofrer
de flatus vocis, e acorda nos braços de outro
bombeiro: o fantasma erótico da jovem “contaminou” a todos os outros. O Desejo
não é coisa – ousia, substância-, e sim energia: invisível, habita em tudo,
décors e Natura inclusive. A maior parte do filme os personagens escrutam,
espreitam, auscultam a iminência de sua chegada, e isto dá aos planos uma aura de suntuosos
monólogos mediúnicos: é sempre no interstício entre a presciência do que virá e
a sua chegada que o personagem se posta; e Arrieta não precisa sequer indicar
literalmente este caráter intersticial do décor, situando-os em limiares, atrás
de portas, antecâmaras. Não: o plano já está de tal forma imbuído de energia,
de stimmung, de teluricidade que
basta deixá-lo lá, à espreita; convertidos em bons entomologistas, contentamo-nos
em dedicar toda a nossa ansiosa atenção a discernir a chegada do Desejo, deus
que desta feita dispensou a metamorfose animal e preferiu a modesta máscara lumpen do bombeiro.
terça-feira, 29 de dezembro de 2015
quarta-feira, 23 de dezembro de 2015
Vingança de uma mulher: O olhar impossível
A vingança de uma mulher, como um
filme com o qual guarda semelhanças de pathos e de rubrica, Ne touchez pas la
hache, é antes de tudo um travesti literário; embora literal adaptação de
Aureville, é uma interpretação do espírito das novelas de Stendhal: um mundo consumido
por paixões estertóricas, por opróbrios suntuosos e sacrifícios crepusculares;
só que este Sturm und drang “aparece-nos” de forma enviesada, através da
distância ironista de um observador, senão desinteressado, pelo menos
impenitente- aquele que não tem nada a perder, e pode se dar à opulenta arte da contemplação
sem sofrer os revezes da “vingança de Medea” ou do olhar da Medusa: olhar
demais e atentamente para o monstro pode liberar em nós o que o espelho
guardava zelosamente.
O menino do teatro, o “raconteur”
da história, o décor ritualmente “assinalado” em Vingança de uma mulher são
este terceiro olho, este discurso indireto livre de que as tiradas, as
digressões, o estilo expedito e lacônico
de Stendhal nos dão a versão literária, navalha afiada pelo sal ático da verve satírica.
Já o olhar da “puta nobre”, que se queima até os abismos de uma negra
consumição erótica, é aquele que se atreve a ultrapassar os limites civilizados
da ribalta ( a pena, a narrativa, o teatro; em suma: da representação), e encarar soberanamente o mundo, em sua abjeta grandeza;
só o contracampo das estrelas na noite imemorial está à sua altura, à sua
baixeza: seu discurso é repetido em off na contra plongée do céu, sublinhando-se aqui o pertencimento da
mulher, possuída pelo horror vacui da
paixão impossível, a uma dimensão pré ou
pós-humana, obscenamente cósmica; ninguém mais ousaria assumir- sobretudo em
século tão amaneirado, no qual o Eu se refrata em incontáveis prismas
de salão e de retórica, furtando-se com método ao tète-à-téte com o próprio daimon- este embate trágico no qual ela
se perdeu para sempre; assim, o seu interlocutor a olha uma última vez, mas é
como Perseu “ousa” encarar a Medusa: protegido pelo espelho. O espelho aparece
novamente na cena seguinte, enquanto a esgrima Noblesse oblige encena-se ao
fundo, do som e da profundidade de campo; o nosso homem prefere, como todos ( “Se
eu tivesse achado a comida de todos vocês, eu teria me fartado dela como todos vocês
e morrido como todos, “Um artista da fome”, Kafka), a antecâmara apaziguada da
subjetividade, de que o espelho é o demonstrativo emblema heráldico: as superfícies
anódinas de um riacho raso.
Se Rita Azevedo Gomes se recusa a
mostrar o corpo ou o rosto da heroína, não é por litote classicista ou recalque oitocentista, de que o filme seria o
porta-voz mimético; um filme que chega tão longe quanto Lucio Fulci no
imanentismo da carne decomposta ( a cena do coração) não mais conseguiria
recuar, dado que a partir de um certo ponto, como o mesmo Kafka um dia
descreveu, não é mais possível voltar atrás: o mecanismo adquire demoníaca
autonomia, pertinência e impetus
teleológico. Se o corpo nos é recusado, é porque a duquesa já pertencia ( como
Balibar na despedida no convento de Touchez pas la hache) a um recuadíssimo, vertiginoso
e espectral habitat de Distância, onde já nenhum olhar ou súplica as poderiam
resgatar: e o cinema, arte materialista, sabe que o morto repousa naquela fronteira interdita, impossível, de que o apelo do Cristo ressuscitado a Madalena é o grande significante: Noli me tangere.
sexta-feira, 31 de janeiro de 2014
Um dos meus textos favoritos no Dicionários de cinema: Jean Narboni sobre O desprezo.
http://dicionariosdecinema.blogspot.com.br/?zx=8082729a567e231d
http://dicionariosdecinema.blogspot.com.br/?zx=8082729a567e231d
sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
Les jous òu je n'existe pas, Fitoussi
Gérard Blain,
certos Hanoun, certos Guiguet; acrescentem à lista outro sublime “bressoniano”:
Fitoussi. Les jours òu je n’existe pas é a mais material das parábolas, a
fábula mais presente. Junto ao materialismo do cinema, enfatiza-se com igual
rigor o seu paradoxo opaco, rasteiro: ser arte “cercada de invisível por todos
os lados” ( o fora de campo, de quadro); ser um conto iniciático, um ersatz
metafísico da experiência, uma contemplação nirvânica do Real. Mas também o registro metódico ( maníaco) dos rastros que o corpo imprime
às outras matérias, o relatório de devires fantasmagóricos, o sismógrafo de
superfícies ressoantes de passos, encontrões e horror vacui. Uma e outra coisa?
Não, a mesma e Outra. Sempre pensei que a porta que se fecha ao final de The
searchers podia ser obra de homem, de morto, de sonho. O que importa é que a
porta se fecha. Sim, o efeito antes da causa: como se o fito de toda matéria,
de seu ricochetear e esbarrar no mundo, fosse suscitar a posteriori o aconchego
da mão de um anjo guardião, de um demônio de sonho e cinza, de um Deus
aposentado a reverberar no verão- que estas Fúrias e ninfas só existissem como
efeito de um teatro das matérias, de um concentrado e transido trabalho de
inervação do plano pela matéria. Não podemos esperar outro milagre; não devemos.
domingo, 8 de dezembro de 2013
Texto meu na Revista Lumière sobre o "maneirismo pobre" de Júlio Bressane.
http://elumiere.net/especiales/bressane/manierismo_bressane.php
http://elumiere.net/especiales/bressane/manierismo_bressane.php
sexta-feira, 6 de dezembro de 2013
Nova edição da Cinética, com pauta James Benning. Texto meu sobre Landscape suicide e Acéphale, de Patrick Deval.
http://revistacinetica.com.br/home/landscape-suicide-de-james-benning-eua-1987/
http://revistacinetica.com.br/home/acephale-de-patrick-deval-franca-1969/
http://revistacinetica.com.br/home/landscape-suicide-de-james-benning-eua-1987/
http://revistacinetica.com.br/home/acephale-de-patrick-deval-franca-1969/
sexta-feira, 6 de setembro de 2013
No Dicionários, textinho foda do Narboni sobre um early-Godard que particularmente adoro, Les carabiniers.
http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4761780293136490854#editor/target=post;postID=8049503110304699009;onPublishedMenu=allposts;onClosedMenu=allposts;postNum=0;src=postname
http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4761780293136490854#editor/target=post;postID=8049503110304699009;onPublishedMenu=allposts;onClosedMenu=allposts;postNum=0;src=postname
quarta-feira, 19 de junho de 2013
Máscaras e mascarados
Há um dos documentos mais relevantes que conheço sobre
cinema: um filme “didático” feito por Rohmer para a televisão francesa sobre
Louis Lumière, em que ele intercala trechos de seus filmes com um papo com os
mestres Langlois e Jean Renoir. Em um determinado momento, Langlois nos dá a
chave para compreender a complexa dialética mobilizada ali, e que tenta, pelos
meios civilizados ( de la litote, comme d’habitude) que eram comuns aos três
homens, desmistificar esta oposição, tão cara à crítica acadêmica, entre
Lumière e Méliés. Ele nos lembra que Lumière “mandou” os operários saírem
novamente da fábrica, porque a porta se fechava muito abruptamente e a câmera não tinha tempo de “dar o tempo
necessário” à captação daquela experiência lumpemproletária; fora o fato de que
Lumière filmava num certo cadre ( limite espacial), num limite temporal (
devido à pobre sensibilidade à luz da película ortocromática), etc...Ele reencenava o espaço-tempo.
Todo cineasta sabe que o espaço que ele vê quando chega na
locação não é o espaço da percepção ordinária, uno e contextualizado; é já um
espaço pré-decoupado, pré-montado mentalmente- já “significativo”,
proto-ficcionalizado. A prise de vue
baziniana já carrega o selo do sentido e o filtro da magia. Um grande ( um dos
maiores) filmes que trabalha esta dialética é Le sang des bêtes, de Franju, em
que o lirismo e o horror contraem núpcias: o excesso de realismo da morte dos
animais acaba por dar uma impressão de super-realidade ( surrealidade), por
intercessão das mediações- as imagens dos arrabaldes “feéricos”de Paris. Feéricos
no sentido de que estes nichos de clochards e crianças ao léu viram depósitos
onde se acumula todos aqueles objetos encantados ( porque retirados da linha de
produção de “troca” do capitalismo) que Rimbaud cita em Uma Temporada no inferno:
refrões velhos, árias de ópera pitorescas, bonecas sem cabeça, etc ; objetos
que, como as ruínas da capital francesa, inspiraram a Benjamin os collages , entre
documentais e escatológicos ( mas há diferença, a esta altura?), de seu último
livro-monumento.
Máscaras, de Noêmia Delgado ( 1976) é destes filmes em que a dita oposição,
desmascarada comme il fault, retoma o seu constelacionismo dialético: aqui,
trata-se de fixar o olho “autopsista”, escrutinador e mecânico da câmera sobre
as ficções, os jogos e as glosas do que acontece em torno.
Em cinema, arte onto-numinosa, basta saber ver para ver do que é feito o mundo: de mistério, maravilha e
horror. É apenas isto o que todo grande filme nos sussurra e morde.
ps: e tem completo no youtube...
quarta-feira, 5 de junho de 2013
Serial killer, Adachi 1969
A flânerie adquiriu no Ocidente uma aura- a aura!-, um stimmung fenomenogógico espectralmente
utópico: nela e por ela, o modus vivendi funcionalista da “divisão
social do trabalho” capitalista era esterilizado: ao flertar com as vitrines e
os transeuntes, deslocamo-nos e divergimo-nos , mas não apenas no espaço;
diferimos, dessacralizamos o tempo que deveria ser destinado à produção, preenchido pelo modus operandi. Este diferir é
democrático- ou antes: qualquer, casual, brincante. Serve ao artista, à criança, à puta, ao serial killer ( não seriam
todos estes – antes da divisão social do trabalho, nosso vero vírus psicótico-
flâneurs?). É isto que nos sussurram estas circunvoluções suburbanas, estas
digressões inscritas sobre o cal e o concreto, estes mabusianos travellings
fantasmas, estes devires-derivas: por aqui passou ( foi) um serial killer de
nome, identidade... ao filme pouco importa, como a qualquer ente digno
de pronome: o seu espaço-tempo fantasma incrustou-se no espaço-tempo gregário e
laboral dos que se apropriam da rua como meio- trajetória, via expressa,
sarjeta- para fins que não lhes dizem respeito: gregários, laborais, quaisquer.
Os travellings trânsfugas, os zooms estrábicos, os faux-raccords zuretas de
Adachi tentam justamente inventariar este espaço ininventariável dos seres que
habitam a cavidade, a fresta, a réstia: crianças,
mendigos, mortos,anjos e serial killers. E não é a estes zumbis ontológicos, grafittis
do possível- nutridos com o sangue, o esperma e os pesadelos dos homens de bem
e de ponto- que se destina toda arte digna de memorabilia?
quinta-feira, 14 de março de 2013
Nova e bela Revista Cinética no ar, agora com parâmetros críticos superiores- leia-se: hermêuticos, ensaísticos. Além do mais, uma extraordinária e divertida entrevista do Francis com Luc Moullet, espécie de cartão de visitas da nova cara e coragem da revista. Textos foda do Fábio Andrade e do Filipe Furtado, respectivamente sobre Caverna dos sonhos esquecidos e Django do Tarantino, cobertura de Berlin...E aqui links de quatro textos meus que me deram muito tesão e orgulho de escrever, sobre a escrotice Amour, Morrer como um homem ( pauta J.P.Rodrigues), O cinema de F.S.Ossang e O sopro do presente sobre O que se move de Caetano Gotardo. Enjoy!
http://revistacinetica.com.br/home/amor-amour-de-michael-haneke-francaalemanhaaustria-2012-2/
http://revistacinetica.com.br/home/o-que-se-move-de-caetano-gotardo-brasil-2012/
http://revistacinetica.com.br/home/o-cinema-de-f-j-ossang-da-parte-maldita-e-outros-luxos-punk/
http://revistacinetica.com.br/home/morrer-como-um-homem-de-joao-pedro-rodrigues-portugalfranca-2009/
sábado, 9 de fevereiro de 2013
Bombando meu canal no youtube com novos vídeos. Postei A Morte e o Diabo do Sytephen Dwoskin completo, dois curtas do Alain Guiraudie- La force des choses e Tout droit jusqu'au matin-, a cena final de Le mirage do Guiguet, além de trechos de Nocturno 29 do Portabella, Tam tam e Le chateau de Pontilly do Adolfo Arrieta.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
O diabo provavelmente
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
Chaplin, Renoir, Lourcelles, Biette
Acho que não postei por aqui, mas tinha traduzido para o Dicionários um texto do Lourcelles sobre Verdoux, e agora do Biette sobre Renoir, "a pretexto" do Monsieur Lange. Vão agora os dois links.
http://dicionariosdecinema.blogspot.com.br/2012/12/o-crime-do-senhor-lange-de-jean-renoir.html
http://dicionariosdecinema.blogspot.com.br/2012/11/monsieur-verdoux.html
http://dicionariosdecinema.blogspot.com.br/2012/12/o-crime-do-senhor-lange-de-jean-renoir.html
http://dicionariosdecinema.blogspot.com.br/2012/11/monsieur-verdoux.html
sexta-feira, 23 de novembro de 2012
Holy motors
Féerie e terrorismo sempre foi um patrimônio francês: Lautréaumont,
Rimbaud, Le sang d'un poète ( Cocteau), todo o surrealismo, o Buñuel dos
primeiros filmes, Feuillade, O testamento do doutor Cordlier ( Renoir), Pierrot
le fou, Change pas de main ( Vecchiali), Les nuits rouges ( Edith Scob!), Grenouilles
de Arrieta, e claro Carax... Holy é a consequência lógica desta implicação
surrealista tenebrosa: representar é um ato abissal e selvagem, que consiste em
violar as superfícies do Logos e do Ethos e deixar emergir à flor da imagem o
fantasma de que esta se nutre... Temos um filme sobre performance(s)? não
apenas. Ou antes: filme sobre a performance como um ato terrorista que consiste
em transformar o corpo organismo numa máquina, plástica e energética, de
possessão demoníaca pelo Outro(s). A operação de guerra consiste antes de tudo
em estratégia mediúnica de possessão; mas para que esta infiltração do Mesmo
pelo Outro se dê, é necessária uma prévia e correlata operação de despossessão
de si: o milionário vai assumindo todos os personagens à margem dele ou contra
ele, os que o ameaçam ou o desmascaram: o traficante, o músico flanêur, o mendigo,
o monstro do Ça, Cordelier...ele se acumplicia com o que prepara a sua destruição
( a nossa revolução?); não à toa, as mortes que Oscar vai sofrendo ao longo do
filme... Neste corpo frágil e alquebrado – poroso à abertura , figurativa e
dramática, ao circuito de personas- , o terror aparece sob o regime da
metamorfose ( os tantos corpos , imagens e dispositivos que Holy nos dá a ver,
reinventando o pós-moderno por um discípulo de Cocteau). Travestir-se em Outro,
ser um xamã de presenças: esta é nossa arma e nossa maldição; a arma “mimética”
de que dispomos para um tempo que nos exclui, a maldição que nos conclama a transformar
o opróbio do capitalismo tardio em festejo de desterritorialização e- em um
mesmo diapasão e movimento- crepuscular ocaso do Si Mesmo. Si, Orfeu; no
pasarán.
quarta-feira, 10 de outubro de 2012
Il giorno della vita, Alessandro Blasetti
Questão
que sempre me intrigou: do status de um contracampo...em Fassbinder,
os contracampos são sempre muito distantes, mensurando a alienação
dos personagens ( de uns para os outros e deles para o décor):
uma radicalmente nova perspectiva sobre o mundo se abre; da sarjeta
ao bureau de almoxarife , da chaise-longue de Guermantes à
prisão de Notre dame des fleurs ( perversão sub-reptícia
inter-planos: estariam tão distantes assim?)...nos clássicos, é
quase sempre uma straigt line, que confronta ( antes: designa)
as distâncias e as iminências, as arenas pupilares, e posterga (
sublima, ratifica, difere) o confronto propriamente: Noblesse
oblige. No cinema primitivo, é choque frontal ( Lourcelles):
proscênio contra ribalta.
Nesta
obra-prima de sournoise crueldade, o contracampo assinala
aquele espaço geralmente interdito no cinema de gênero: a clareira
da testemunha, ser alheio à saraivada comumente reservada ao
campo e contracampo, ente que habita fantasmagoricamente o fora de
campo , instância fundamentalmente temporal ( memória,
imaginário) que serve para estruturar nossa percepção contínua
de um filme, arte descontínua -découpada espacial e
temporalmente- por excelência...O filme narra a invasão de um
convento de monjas dominicanas por partigiani fugindo dos
alemães. Estas, por voto rigoroso consagradas à clausura, estão
impossibilitadas de encará-los face a face; mas uma reconhece num
dos partigiani o homem que matara seu marido, ex-oficial, e...
Talvez o fato de Blasetti centrar no espectador ( ou testemunha) o
efeito das ações do filme seja diegeticamente legitimado: a
clausura necessariamente infunde à forma do filme um pudor
suplementar, clássico-clássico, em que o olhar é baliza em surdina
– sismógrafo, trop tard de- da
experiência. Em que experienciar o evento é necessariamente chegar
tarde demais- é reservar à pupila, nicho de separação, de a
posteriori- sua sôfrega chaga.
Olhar é sempre chegar tarde demais, oras!
...mas
como estou pouco me lixando para diegeses e outros xaropes
narrativos, geralmente suportes para críticos medíocres, centro-me
na estratégia existencial- numinosamente- genial desta reserva,
desta “centralidade e frontalidade” ( norma clássica ,
academicamente aposta por Mourlet como regra tout court)-
centradas sobre a face do Outro. Pois é dele que se trata...não
necessariamente humano: a santa que balança e quase cai, imantada e
finalmente fulminada por forças que de transcendentes já nada tem (
a Guerra, a excitação sexual dos solados,o ressentimento do Madre).
Ou a kammerspiel
sequência na cave, quando do ataque dos alemães, em que blocos
tensos e coalescentes de uma treva que insiste em se colar aos corpos
constituem ilhotas de intensiva, energética expectação. Tudo e
todos no filme de Blasetti são testemunhas-
tudo é contracampo. Giorno della vita é dos filmes mais geniais que
já vi porque, infiltrado e stacatto de
planos sequências por todos os lados- e quão camerísticos e
incisivos são seus tons e gestos, quão evanescente sua crueldade e
violadora sua presciência!-, é um filme sobre o contracampo: sobre
a impossibilidade de sermos
plenamente num único e definido ponto do espaço-tempo, de
precisarmos necessariamente nos deflagar e dispersa num Outro para
sermos: assim como todo ente deve necessariamente desaguar numa alteridade parra ser reconhecido, em cinema campo e contracampo, plano e sequência etc.
E
aqui não vai nenhuma punhetagem “logofílica”- sociológica,
ontológica... O filme é de uma sobriedade desconcertante, de uma
vitalidade mortificante, de um furor clarividente. Sinto-me tentado
então a enumerar os paradoxos de São Bernardino de Siena ao
enaltecer o esplendor do milagre onto-teológico da Concepção
mariana: aqui, o infinito faz-se finito, a fulminação narrativa, a
crônica de campanha Sturm und drang demoníaco, partida de xadrez
entre a História e o Divino... mas Blasetti tira partido da
crueldade inerente à estética clássica: nada se mostra ( ou não
parece aparecer), até que seja
tarde demais, e vejamos o horror que intersticialmente se mostrara
até ali, sem que estivéssemos à altura dele: os cadres no cadre (
sequência genial da câmera “feito mira”, quando do combate
primeiro com os alemães, no bosque defronte da igreja); a surdina e
o “ser-rastro” com que os personagens deslizam entre um campo e
outro, transformando um concertante Merry-Go-round de cortes em
farfalhante sussurro de Nihil
, em plano sequência cerzido entredentes ( o quão Hitchcock parece
infantil, ao lembrarmo-nos dos fondus en noir de The rope!); e
sobretudo esta genial intuição de mostrar-nos (?) a presença
percebida unicamente como ausência- o tempestuoso e o ominoso sob a
máscara do transparente e do rarefeito ( como na missa de Te Deum,
da qual só vemos as pequenas, divertidas e ciciantes disputas entre
os partigianni, em
torno da igreja, contrapostas contra o reticente murmúrio de Eterno
que rói o campo)... Este roer espelha por sua vez um canibalismo
menos caricioso e bem-aventurado, digamos... os alemães continuam a
rondar ( como o Deo Gratias de Haydn entoado aqui), e ao final voltarão a penetrar
o campo, com exclusão de tudo o mais... O contracampo como
fulminação, só que diferida-
o tempo de um filme...
Ao
final, esta“centralidade e frontalidade “ , em que a câmera
parece corroer a pátina do rosto com os estilhaços da finitude,
intenta se justificar... quando do evento monstruoso que fecha o
filme, só vemos - na profundidade de campo em que o microcosmo do
convento coalesce com o macrocosmo abissal da História à porta- a
“coxia” do horror: os comandos extasiados em fúria, a marcha
horizontal de soldadinhos histéricos, o braço marcial do
comandante, o estrabicamente desvairado olhar de um tenente que
parece recobrar a lucidez, por um momento... quando a câmera enfim
retrocede e- partigiani
agora reunidos, após a morte dos invasores- re-descobre o teatro do
horrível massacre que encerra Giorno della vita, a cena, o proscênio
e a ribalta do cinema clássico reconciliam-se: a quarta parede (
contracampo) retoma seu lugar no plano sequência, e dança... mas
volta a se fechar ( a se entrincheirar ou entombar),
no corte final em fondu...
Não
foi para isto que nasceram os clássicos? Para dançar? Bizet,
Kleist, , Musset, Shakespeare... affaire
de coreografia, númen, Espírito ( do grego Pneuma, Ar: Leveza
rules). Dancemos sobre
os escombros...
Texto meu sobre O som ao redor o Kleber Mendonça na Cinética.
http://www.revistacinetica.com.br/osomaoredor.htm
http://www.revistacinetica.com.br/osomaoredor.htm
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
Cosmo
Cosmopolis é uma obra-prima, mas isto é um lugar-comum espectral que não diz ainda porra nenhuma do filme. Aliás, espectral diz. Ah, sim: a a teoria de Austin sobre os enunciados performativos talvez sugira um caminho para falar de um filme de ação onde a ação consiste unicamente em discorrer sobre a sua imponderável impossibilidade em nosso tempo e em nosso mundo ( mundo? tempo? do que se trata mesmo?).
"Enunciados performativos são enunciados que não descrevem, não relatam, nem constatam absolutamente nada, e, portanto, não se submetem ao critério de verificabilidade (não são falsos nem verdadeiros). Mais precisamente, são enunciados que, quando proferidos na primeira pessoa do singular do presente do indicativo, na forma afirmativa e na voz ativa, realizam uma ação (daí o termo performativo: o verbo inglês to perform significa realizar). (...) Exemplos: Eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo; Eu te condeno a dez meses de trabalho comunitário; Declaro aberta a sessão; Eu te perdôo. Tais enunciados, no exato momento em que são proferidos, realizam a ação denotada pelo verbo; não servem para descrever nada, mas sim para executar atos (ato de batizar, condenar, perdoar, abrir uma sessão, etc.). Nesse sentido, dizer algo é fazer algo. Com efeito, dizer, por exemplo, Declaro aberta a sessão não é informar sobre a abertura da sessão, é abrir a sessão."
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
Carpenter, Vidor, Hawks: diacronia do Kairos
Billy the kid ( King Vidor, 1931)
Rio Bravo ( Howard Hawks, 1959)
Assalto à 13 dp ( John Carpenter, 1973)...
são virtualmente o mesmo filme. Uma América encurralada num espaço concentracionista, cagando-se de medo do Outro, da História, do Recalcado ( e subentenda-se seus respectivos contextos políticos apolcalípticos: o crack de 29 e o New deal; a sombra "mefistofélica" de Maccarthy ainda pairan
Rio Bravo ( Howard Hawks, 1959)
Assalto à 13 dp ( John Carpenter, 1973)...
são virtualmente o mesmo filme. Uma América encurralada num espaço concentracionista, cagando-se de medo do Outro, da História, do Recalcado ( e subentenda-se seus respectivos contextos políticos apolcalípticos: o crack de 29 e o New deal; a sombra "mefistofélica" de Maccarthy ainda pairan
do sobre o liberalismo de Kennedy; e Wartergate).
Ou: da necessidade de substituição de uma crononologia evolutiva\exposivitiva por uma diacronia genealógica para captar a verdadeira temporalidade que imanta, anela e dispersa obras de arte...uma História de.
...pois sabemos que para os antigos Cronos era o tempo da sucessão efemérica, da acumulação anódina de dados e fatos "quaisquer"; era no tempo Kairos que se davam as grandes sínteses- a aurora da Revelação e da Redenção ( e aqui, do sentido)...
Ou: da necessidade de substituição de uma crononologia evolutiva\exposivitiva por uma diacronia genealógica para captar a verdadeira temporalidade que imanta, anela e dispersa obras de arte...uma História de.
...pois sabemos que para os antigos Cronos era o tempo da sucessão efemérica, da acumulação anódina de dados e fatos "quaisquer"; era no tempo Kairos que se davam as grandes sínteses- a aurora da Revelação e da Redenção ( e aqui, do sentido)...
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
O sentido da História Delahaye
Traduzi o texto do Michel Delahaye sobre Legiões de Cleópatra de Cottafavi no Dicionários de cinema. Divulguem. Texto foda sobre filme fodaço.
http://dicionariosdecinema.blogspot.com.br/2012/09/o-sentido-da-historia.html
http://dicionariosdecinema.blogspot.com.br/2012/09/o-sentido-da-historia.html
sexta-feira, 17 de agosto de 2012
Jia
Pauta Jia Zhang ke na Cinética. Texto meu sobre Prazeres desconhecidos.
http://www.revistacinetica.com.br/prazeresdesconhecidos.htm
http://www.revistacinetica.com.br/prazeresdesconhecidos.htm
Billy Vidor
Vou fazer uma confissão: eu ontem vi um coice de cavalo. Pela
primeira vez. E durou 5 minutos!, verdadeiro circo em locação, com todas as
piruetas e ricochetes da sarabanda tentativa x erro. Um homem e seu cavalo; o
homem, mais ou menos néscio, caipira e despirocado, antes presa que caçador-
tinha um chapéu menor do que a cabeça, uma cintura fanfarrona, um ventre que
mal cabia nos vãos do suspensório. E se precipitava sob a pata do alazão...Pela primeira vez. E não foi
para isto que o cinema nasceu? Para ver as coisas pela primeira vez? Com os
olhos outros- como o foram um dia as “pupilas gustativas” dos cachorros, das
crianças e dos répteis- de uma alienígena incrustação no olho do cu do mundo?
Uma cova sob o planalto do visível? A arritímica fungada da cocaína, o
sempiterno flash da epilepsia, o Hic et nunc do raio sobre Justine. Pedro Costa
escreveu numa conferência em Osaka do espanto que era este cinema primevo- o
espanto de ver um cachorro atravessar a rua e não saber(mos) se voltaria para
casa. O fio finito da vida se esgueirando sob a malevolente crisálida do Fatum
e da História, nela encarniçando-se e encaralhando-se: na próxima esquina, no
vizinho contracampo, se entrincheira a gang de cossacos de cujo humor depende
nosso trono, o raio casualmente fatal, o vômito de um deus? “Do Nada” (e para o
Nada) pode estar tudo acabado... mas já??! e pela primeira vez... O filme se
chama Billy the Kid, do demiurgo-macumbeiro King Vidor, e é de 1930. E foi o
primeiro filme que vi na vida.










