O cinema de
Straub e Huillet é um cinema de conversão; do verbo mediado dos escritores que
“presentificam” ao verbo apofântico das origens, que nos dá a ver as coisas
enquanto coisas: ventos, colinas, gestos, zumbido dos ventos e das abelhas
participam desta festa do Verbo inaugural. Kommunisten acrescenta a esta
experiência de manifestação in
loco a experiência da
montagem, que na história do cinema correspondeu a um outro Logos e
Nomos; aqui, as duas vertentes reúnem forças para a batalha de afirmação de uma
soberania política e ontológica que teve como heróis não apenas o comunista do
título ( inspirado em novela de Malraux) como Empédocles, os operários egípcios
de Trop tôt, trop tard; o Franco Fortini do Cani dei Sinai; a comunidade
“por-vir” da cooperativa de Operai contadini; e a estátua de terracota telúrica
que interpreta Huillet em Pecado negro, que ao final do filme subitamente
adquire presença encarnada ( ou seja: ainda Verbo) e conclama a todos os
outros: Neue Welt.
A montagem é o lugar de um congraçamento, a cristalização
de uma velha nova História, a clareira onde os heróis e os semideuses do Mito e
da História ( História, Mito, estaremos sempre neste carrefour, de cá para lá) se
reconhecem num venerável espelho: Jean-Pierre Vernant nos diz em seus estudos
sobre o fantasma, o cadáver e o divino na Grécia antiga que havia na entrada de
um templo de Diana um espelho baço, no qual um rosto de devoto se reconhecia
vacilantemente; era o rosto do Deus, inacessível na profundidade de campo
“castrada” da superfície impolida, que dava sentido a tudo. Um espelho de rigor
anti-subjetivista, um Logos que celebra a negação enquanto tal ( todas as
comemorações aqui encenadas carregam o estigma da repressão, do Oblivium
histórico, do massacre), uma poética na qual a épica é “remontada” pela elegia
e pervertida em seus propósitos metafísicos de fundação; o cinema de Straub e
Huillet celebra e resiste, mas sem nunca abdicar deste sal ático do negativo,
que empresta a esta orquestração cadenciada entre um Bildungsroman mítico e uma
égloga historicista ( aqui, os signos, os códigos, os agentes são
invertidos e confundidos com rigoroso método de enxadrista) um sopro trágico de coups de dés divino: mas o que seria do divino sem
a palavra do homem, como do homem sem os lances do Divino? O cinema de montagem
aqui não se opõe ao “plano sequência e locação”; ele reconcilia, mas num outro
plano, o plano do “plano túmulo” de que falava Daney; sem a Morte, o desastre,
a perda de si-mesmo, nunca seremos nem diremos nada: o tempo da significação é
o tempo que resta. Aquele, porém, que sobreviver às duras provas da História e
do Mito receberá o dom de ser, de dizer e de reunir- e presente maior haverá?
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